A receita para quebrar na bolsa

Você sabe o que a alavancagem pode fazer com seu patrimônio?

Buscando atalhos

Muitas pessoas têm medo da bolsa.

Provavelmente você tem algum conhecido ou já ouviu alguma história de alguém que perdeu tudo, quebrou e ainda ficou devendo dinheiro após operar na bolsa.

Mas você sabe como alguém quebra na bolsa?

Será que se você pegar a parte excedente da sua poupança e colocar em ações, com foco no longo prazo, você corre o risco de quebrar?

A não ser que você tenha colocado algum dinheiro que não deveria na bolsa (como o que obteve vendendo sua casa para investir, por exemplo), em um cenário extremamente improvável onde o valor de todas as ações investidas vão a zero, você perderá apenas o capital que já topava perder.

Se você investe ao longo de décadas, em algum momento você vai ver a parte do seu patrimônio alocada em ações cair pela metade, mas as economias funcionam em ciclos, nenhum boom é eterno, nenhuma crise é eterna.

Isto é apenas a volatilidade, e volatilidade não é risco. Você só precisa não se desesperar no pior momento, assim como, também não deve ficar excessivamente animado em momento de forte alta na bolsa.

Ok, entendi. Mas então como as pessoas quebram?

Elas buscam atalhos, investem um dinheiro que não tem.

Isto se chama alavancagem, que basicamente significa operar com um capital muito maior do que o que você tem hoje com intuito de embolsar o lucro extra em função do maior volume financeiro operado.

Sim, no mercado financeiro sempre vai existir alguém que topa te emprestar dinheiro, mesmo que as chances de que você vá perder sejam altas.

É como se a Caixa Econômica Federal resolvesse te emprestar dinheiro para você jogar na Mega-Sena.

E se o dinheiro não é seu, o que pode dar errado, não é mesmo?


Como Funciona a Alavancagem?

Existem diversas formas de se alavancar, como: obter um empréstimo com sua corretora; operar contratos futuros (que são naturalmente alavancados); vender ações a descoberto (vender uma ação que não possui e fazer o que quiser com o dinheiro); investir em fundos que utilizam a alavancagem para obter retornos maiores ou que se comprometem a entregar a volatilidade de algum índice multiplicada por um fator pré-determinado; se alavancar com opções etc.

Enfim, são várias as formas e instrumentos existentes no mercado para que você opere um capital maior do que o que você tem disponível. Mas para passar minha mensagem de hoje, entender apenas o conceito basta.

Vou utilizar um exemplo (simplificado) para facilitar a compreensão.

Suponha que você tenha 10 mil reais disponíveis, mas conseguiu encontrar uma forma de operar com uma alavancagem total de 10x, ou seja, vai deixar os 10 mil depositados como garantia e vai operar, efetivamente, 100 mil reais.

Vamos supor que não existem custos operacionais, e analisar o que acontece com o seu patrimônio quando o ativo que você está operando sobe e cai 10 ou 20 por cento.

Simulação de operação alavancada. Fonte: Nord Research.

Como podem ver na tabela acima, os retornos sem alavancagem são iguais à variação do ativo e os retornos com alavancagem são 10x maiores.

Todos nós gostaríamos de investir 10 mil reais e ganhar 20 mil reais com uma variação de apenas 20 por cento no ativo. Isso nos deixaria bastante satisfeitos.

Mas acredito que a insatisfação/raiva/dor seria muito maior do que o inverso da alegria na hipótese acima, quando ao oscilar apenas 20 por cento para o lado oposto ao que nos beneficiaria, descobrirmos que não só perdemos os 10 mil reais inicialmente aplicados, como também ficamos devendo mais 10 mil reais.

Mas existe um problema ainda maior.

Se você opera alavancado de maneira contínua, não importa o quão estratosféricos são os ganhos que você acumula, em apenas uma operação você pode colocar tudo a perder e ainda ficar devendo dinheiro

E quanto maior a altura, maior o tombo.

Vamos supor que você repita a operação do melhor cenário (valorização de 20 por cento do ativo) por 5 vezes seguidas, alocando novamente todo o saldo inicial + o ganho obtido a cada passo.

Você vai se tornar um ser mítico, uma lenda  aquele que transformou 10 mil reais em 2,4 milhões de reais.

Mas agora você ficou rico, largou seu emprego e traçou como meta adquirir uma Ferrari 488 GTB, que até chegou no Brasil custando 2,5 milhões de reais, mas com o dólar no patamar atual não vai sair por menos de 3 milhões.

Ferrari 488 GTB. Fonte: Ferrari.

Se até aqui tudo deu certo, por que não tentar só mais uma vez?

Com mais um acerto você vai ter 7,3 milhões de reais, suficiente para comprar a Ferrari e ainda sobra bastante.

Acontece que justamente na sexta operação, os ventos não estão ao seu favor e ao observar que o ativo caía -15 por cento você encerra a operação.

Mas tudo bem, você já ganhou bastante dinheiro, a Ferrari só vai ter que esperar mais um pouquinho para ser sua, correto?

Erradíssimo!

A parte cruel da alavancagem é que ela potencializa seu retorno em qualquer ocasião, não importa se é um lucro ou um prejuízo.

Neste caso, mesmo com uma queda menor do que a que obteve em cada acerto, como o ativo caiu mais de 10 por cento e você estava operando 10x o capital que possuía, você perdeu tudo o que acumulou de uma vez e ainda ficou no vermelho.

Após um investimento inicial de apenas 10 mil reais, 5 acertos e 1 erro, você acumulou um saldo devedor de -1,2 milhão de reais.

Você quebrou.

Invista com consciência

Quando a alavancagem dos investimentos ainda é vinculada a algum tipo de análise técnica que tenta prever movimentos de curto prazo na bolsa (o que habitualmente acontece), o caminho para falência pode ser ainda mais rápido.

Na minha humilde opinião, operar com base na análise técnica é um jogo muito mais psicológico do que técnico.

Eu desconheço alguma forma de análise técnica que tenha um índice de acerto estatisticamente diferente de 50 por cento. Assim sendo, os poucos que conseguem sobreviver a esse violento jogo, são aqueles que dosam bem o tamanho dos acertos e dos erros.

Mas mesmo nestes casos, não foi a análise técnica que fez a diferença, jogar uma moeda teria o mesmo efeito do que “analisar” o gráfico.

Eu sei o quanto a chance de ficar rico rápido é tentadora.

Eu já senti na pele como é operar 569.685… 900.412 reais, ou obter ganhos de 21.756… 25.733 reais, em apenas um dia. Eu sei que isso nos faz sentir como se fossemos super-heróis.

Mas eu te garanto que a dor do tombo é infinitamente maior do que a adrenalina da operação ou a alegria do ganho.

O problema de pegar atalhos é que eles não costumam te levar muito longe e ainda podem acabar te levando para o meio do nada, ou pior, para uma armadilha sem volta.

Felizmente, no trágico final da Minha História de Fracasso eu não saí devendo dinheiro, mas a dor e os consequentes efeitos psicológicos da perda, eu carrego até hoje.

E não, eu não quero que você entre em depressão após ler este artigo, pelo contrário, quero evitar que você entre em uma cilada.

Porque nos investimentos (ou na vida) cada erro é uma oportunidade de evoluir.

Eu aprendi com a dor. Você pode aprender com a minha experiência negativa.

Depois disso, fui estudar os maiores investidores do mundo, como Warren Buffett ou Peter Lynch, que conseguiram retornos médios superiores a 20 por cento ao ano por vários e vários anos.

Aprendi que o único jeito de ganhar dinheiro com consistência na bolsa é focando no longo prazo, estudando as melhores estratégias, conhecendo a fundo as empresas que invisto e, principalmente, tendo muita paciência e disciplina, sem nunca deixar que as minhas emoções influenciem minhas decisões de investimento.

Hoje, além de ter acumulado um patrimônio que me permite viver com liberdade e tranquilidade, sou sócio de uma empresa que não é apenas muito promissora, mas que ainda me permite trabalhar diariamente em prol de uma melhor educação financeira no Brasil.

Tenho muito orgulho de fazer parte desse time maravilhoso e de defender esta causa.

Para finalizar, quero deixar apenas 3 recados simples e diretos:

  • Invista com consciência;
  • Corra apenas os riscos necessários (se alavancar não é um deles);
  • Conte com a Nord para lhe auxiliar nessa jornada.

Um abraço,

Ragazi.


Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Rafael Ragazi
em 17/07/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira como Analista na Investor Consulting Partners (assessoria especializada em M&A e finanças corporativas).Posteriormente, foi Gerente de Novos Negócios na Wise Up|Somos Educação (enquanto investida da Tarpon Investimentos) e Sócio responsável pela área comercial e membro do comitê de investimentos da Luminus Capital Management.

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