Ainda somos os mesmos

"As que sobem são maravilhosas; as que caem são uma porcaria”.

Dia 1

Estamos na sede de uma grande empresa de capital aberto. São 8 horas da manhã. Cúpula reunida: o CEO convocou, às pressas, uma revisão do planejamento estratégico.


O sujeito, um careca baixinho de sobrancelhas muito grossas, vocifera:


— Precisamos rever tudo! Tudo! O mercado derrubou as nossas Ações ontem. Precisamos ajustar nossas projeções de faturamento, margens e lucro para as novas perspectivas de futuro que se apresentam. Vamos cortar quadro de pessoal. Suspender novos investimentos. Vamos nos preparar para dias difíceis…


O clima é tenso. Um desavisado qualquer pensaria que o mercado da véspera havia sido ruim por conta de uns desaforos que o Trump falou para o Xi Jinping via twitter. Mas a turma bem instruída sabia que os mercados eram eficientes e, portanto, se as Ações haviam sofrido a traulitada que sofreram era porque as perspectivas de futuro estavam piores — e a empresa tinha que ajustar suas próprias expectativas para isso.


A repercussão da reunião do management no chão da fábrica foi estranha: a turma do colarinho branco parecia desesperada, enquanto o Seu Zé, funcionário há quase 30 anos — sempre na expedição — comentava com os mais novos que nunca havia visto a empresa tão bem.


Um mês depois...


Nova reunião extraordinária. O baixinho estava eufórico:


— Nossas Ações subiram 20 por cento ontem! Precisamos dobrar o quadro! Anunciar uma nova fábrica na Rússia! Traz aqui aquele banker que queria fazer nosso follow-on anteontem. Salete, traz pra gente aquela Krug que estava na minha adega…


(Nota mental: eu não tenho uma boa lembrança sequer de empresa brasileira abrindo unidade na Rússia)


E lá foi a turma do planejamento (re)ajustar as premissas de faturamento, margens, lucro, geração de caixa, investimentos… afinal de contas, se o mercado estava dizendo que o céu era o limite para aquela intrépida empresa, então o mercado sabia o que estava dizendo e eles deveriam se ajustar.



Excelente empresa


Pelo amor de Deus: se você tiver notícias de uma única empresa cujo processo de tomada de decisão seja assim, me avise — para eu passar bem, bem longe.


Mas sabe o que é assustador? Uma multidão de pequenos investidores toma decisões todo santo dia exatamente assim.


Volto no tempo: estou de volta a 2007, época na qual eu era estagiário de uma pequena corretora regional. Naquela época os homebrokers ainda não eram lá essas coisas e os clientes mais assíduos (para não dizer viciados) se reuniam nas célebres salas de ações para operar.


— O que você acha de XPTO3? — um perguntava.


— É uma excelente Empresa… as Ações já subiram mais de 50 por cento esse ano…


O critério de julgamento das Empresas era, invariavelmente, o comportamento das suas Ações. Havia pouco ou nenhum questionamento acerca da existência de algum nível de correlação entre uma coisa e outra. A turma nunca havia ouvido falar na hipótese dos mercados eficientes, mas o conceito lhes havia ganhado o coração mesmo assim.


(Desnecessário dizer que a excelente empresa era sempre uma Gazola ou uma Docas Imbituba da vida, não é mesmo? Às vezes me pergunto como é possível que a JB Duarte ainda não tenha destronado o Itaú da pole position do Ibovespa)



Olha a cooobra!


A questão, na minha humilde opinião, é extremamente simples: a gente tem notícias concretas das Empresas poucas vezes por ano.


O regulamentar é quatro: três resultados trimestrais e um fechamento do exercício fiscal. A estas se somam as aparições facultativas: reuniões com o mercado, comunicados extraordinários obrigatórios ou não, etc. Algumas equipes de RI empreendem esforços adicionais.


Por fim, tem as informações que se captura pela segunda derivada: informações do segmento no qual a Empresa se insere, declarações de concorrentes, clientes, fornecedores, etcetera.


Por outro lado, mercado tem todo santo dia: e as Ações, pela sua própria natureza, sobem e caem — em tempos como os atuais é bom lembrar que a renda variável varia tanto para cima quanto para baixo, viu?


À medida que não dispõe de informações da Empresa sobre as quais reagir todo santo dia, o mercado oscila em torno de si próprio. É tipo quadrilha de São João: um grita olha a cobra, a turma pula e o sujeito conta que era mentira.


E aí, à medida que os dias avançam e determinadas Ações fazem uma trajetória de escadinhapara cima, as Empresas por elas representadas são galardoadas com o predicado de excelentes. Enquanto outras, que fazem escadinha para baixo, viram párias da Bolsa.


Para a grandessíssima maioria dos investidores de Bolsa, toda a informação disponível acerca de uma Empresa é o histórico de preço das suas Ações. As que sobem são maravilhosas; as que caem são uma porcaria.


Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.



Newton versus Kardec


É história relativamente conhecida que Isaac Newton, um sujeitinho aí que fez umas contribuiçõezinhas para a Física, levou uma trolha gigantesca no mercado acionário. Os gênios também erram — e erram feio.



Ironicamente, a maior parte das pessoas continua acreditando que as relações entre o comportamento das Ações respeita leis da Física.


Eu queria mesmo era que Allan Kardec tivesse se aventurado no mundo das Ações: talvez ele tivesse tido a sacada de que, entre os pedaços de papel representativos de frações de Empresas e as Companhias do mundo real, existe no máximo um perispírito; um invólucro fluídico que liga uma coisa à outra.


E que, em momentos de convulsão bursátil, rola um verdadeiro bungee jump entre o real e o material.


O comportamento de curto prazo de uma Ação diz pouquíssimo (para não dizer nada) a respeito de uma Empresa. Diz, isso sim, a respeito do ânimo dos compradores e vendedores — que, por sua vez, é afetado por n variáveis, muitas das quais nada tem a ver com a Empresa.


E é por isso que a historinha do começo desta newsletter não faz sentido nenhum — e, portanto, permitir que o seu julgamento acerca das suas Ações seja afetado por isto não faz, também, sentido nenhum.


Mais Kardec, menos Newton.



Desconecte-se


Incentivado, em parte, pela célebre foto do Zuckerberg onde todos vestem óculos de VR, menos ele, e em parte como consequência pura e simples do meu saco cheio, recentemente saí do Facebook.



Incentivo a todos a fazerem o mesmo: a vida fica muito mais leve e sobra muito mais tempo para fazer coisas mais edificantes.


Penso, sinceramente, que o mesmo se aplica ao homebroker. Da mesma forma que as Salas de Ações de outrora eram ambiente predominantemente habitado por viciados em apostas, sua versão moderna é um convite para fazer besteira.


Existe uma razão para cassinos e shopping centers não terem janelas. Você acha que o design concebido para o HB da sua corretora não foi pensado com a finalidade explícita de fazer você operar mais?


E insisto: tudo o que você tem, lá, é a informação mais poluída possível: números piscando em verde e vermelho. Confie em mim: isso emburrece.


Desligue-o. Aprenda a ler um balanço. Busque notícias no mundo real. Tenha a consciência de que o dia a dia das Empresas — que é o que produz os resultados que impulsionarão as Ações, no longo prazo, para cima ou para baixo — se processa numa velocidade completamente diferente daquela tela preta com números piscantes.

Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Ricardo Schweitzer
em 24/10/2019 para Nord Insights

Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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