Ações de tecnologia em baixa

O mercado continua precificando um cenário menos favorável para ativos de risco.

Outra semana agitada

Tivemos outra semana agitada em Wall Street, com investidores novamente revisando algumas de suas posições, ainda à luz de expectativas mais altas em relação à inflação e à economia dos Estados Unidos.

Novamente, o índice que agrega as empresas de tecnologia Nasdaq foi destaque de baixa, acumulando uma perda na semana de quase -5 por cento. Em relação ao topo demarcado em meados de fevereiro, a queda é superior a -10 por cento.


Gráfico apresenta o desempenho dos índices Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq 100. Período: 04/01/2021 a 01/03/2021.Fonte: YCharts


Os juros futuros pagos pelos títulos do governo americano têm subido muito ao longo das últimas semanas, diminuindo um pouco a atratividade do mercado de ações, visto que eles oferecem um rendimento “sem risco”.

O título de 30 anos garantido pela maior economia do mundo pagava, ao final do ano passado, uma remuneração de 1,64 por cento ao ano. Hoje, esse rendimento está em torno de 2,27 por cento. Parece pouco, mas na verdade foi um movimento bem expressivo, especialmente para o mercado de renda fixa.

Gráfico

Fonte: YCharts


Ele negou

Dizem por aí que esse rebalanceamento global de carteiras, no qual os gestores estão reduzindo a parcela de ações e aumentando a de renda fixa por conta do aumento dos juros futuros, deve-se ao fato de que o FED (Banco Central dos EUA) deverá subir os juros no país – que estão perto de zero por cento ao ano atualmente – mais rapidamente do que o esperado, por conta de uma provável inflação pela frente.

Todavia, na quinta-feira, quando indagado sobre a questão da inflação, bem como do comportamento do mercado em relação ao aumento dos juros futuros, Jerome Powell (chairman do FED) foi bem claro em suas declarações:

  1. “Estamos confortáveis com a política monetária atual e seguiremos provendo estímulos até que o nível de desemprego retorne ao patamar pré-pandemia ou acima dele.”

Bom, considerando que ainda será necessário criar cerca de 9,5 milhões de postos de trabalho para que isso aconteça, teremos ainda um grande período de estímulos pela frente. Seria como criar aproximadamente 1 milhão de postos de trabalho por mês, até o final do ano, para chegar ao patamar pré-pandemia no começo de 2022. O gráfico abaixo mostra a evolução do mercado de trabalho nos Estados Unidos desde fevereiro de 2020.

Gráfico mostra a evolução do mercado de trabalho nos Estados Unidos desde fevereiro de 2020.

Fonte: The Wall Street Journal

Na sexta-feira, tivemos a divulgação do número de empregos nos EUA, e no mês de fevereiro foram criadas 379 mil novas vagas de trabalho, marcando o mês mais forte desde outubro do ano passado. Imagine o quão fortalecida terá que estar a economia para atingir a criação de 1 milhão de vagas por mês. Soando levemente improvável, o discurso de Powell parece ter um pouco de sentido...

  1. O presidente do FED foi bem claro em sua fala: inflação não é o problema. De fato, ela não é um problema HOJE, visto que a taxa anual do índice de preços ao consumidor está em torno de 1,5 por cento ao ano.

Todavia, vale recapitular a quantidade de dinheiro injetada na economia do país, bem como na mão dos cidadãos americanos, ao longo do ano passado.

Como mostra o gráfico abaixo, na administração Trump foram feitos dois pacotes de estímulos econômicos, totalizando nada menos do que 3,5 trilhões de dólares.

Gráfico mostra os dois pacotes de estímulos econômicos feitos na administração Trump, totalizando nada menos do que 3,5 trilhões de dólares.

Fonte: Peter & Peterson Foundation


Desse montante, 445 bilhões foram diretamente para a mão dos cidadãos por meio de cheques enviados pelo correio, e muitos deles simplesmente não gastaram todo o dinheiro, dada a incerteza em relação à economia do país e retorno dos empregos.

Além disso, aquelas pessoas que milagrosamente não perderam seu emprego durante o pior momento da crise também aumentaram sua poupança, com medo de que o futuro pudesse ser ainda pior.

O gráfico abaixo mostra que a poupança dos americanos totaliza nada menos do que 3,9 trilhões de dólares, bem acima da média dos últimos anos, em torno de 2 trilhões. Apesar de ainda abaixo do pico demarcado no auge da crise, o indicador subiu nas últimas leituras.

Personal saving

Fonte: FED Saint Louis

A conclusão é que ainda há muito dinheiro a ser colocado de volta na economia através do consumo ou investimento, e o mercado teme que, quando isso acontecer, o impacto na inflação poderá ser maior do que o FED espera.

Fica difícil saber em qual momento isso efetivamente poderá acontecer. Porém, à medida que boa parte da população dos Estados Unidos vai sendo vacinada, retoma seus compromissos e passa a tocar a vida de uma maneira mais “normal”, com menos incerteza e medo pela frente, pode ser que o dinheiro volte a circular.

Atualmente, cerca de 15 por cento da população do país já foi vacinada. Além disso, nessa semana, o presidente Joe Biden anunciou que terá doses suficientes para vacinar toda a população adulta do país até o final de maio – um pouco diferente da nossa realidade, não é mesmo? Como já dizia o bom velhinho, nunca aposte contra a América.

Talvez, no segundo semestre do ano, a situação já esteja bem melhor e o povo decida gastar um pouco do que está guardado na poupança.

Mais por vir

Não bastasse esse montante de 3,5 trilhões já despejados na economia, o atual presidente do país tem planos audaciosos para a retomada econômica.

O próximo passo de Joe Biden é colocar em prática um pacote de ínfimos 1,9 trilhão de dólares. A ajuda irá para diversos setores da economia, com destaque para os pequenos negócios, escolas e – pasmem – mais um cheque de 1400 dólares para os cidadãos do país.

Quadro apresenta o plano de Biden de 1,9 trilhão de dólares para combater o Coronavírus.

Fonte: The US Sun


O chefe de Estado também pretende aumentar o salário mínimo em nível federal para 15 dólares por hora, dos atuais 7,25 por hora.

Fato é que, se tudo isso acontecer (retorno da poupança para a economia, novo pacote de estímulos com dinheiro na mão da população e aumento do salário mínimo), é bem possível que o mercado esteja certo em relação a uma inflação mais forte e mais rápida do que o esperado pelo FED.

Nesse cenário, a maior atratividade dos títulos do governo, principalmente os atrelados à inflação (que ainda pagam pouco, mas quem sabe o que vai acontecer daqui uns meses), faz sentido.

No lado contrário, sofre um pouco o mercado de ações, visto que as empresas terão acesso a um crédito mais caro e provavelmente mais escasso por conta de uma briga com os títulos do governo, que terão taxas mais polpudas.

É esperar para ver. Um olho no peixe, outro no gato.


Até a próxima semana!


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por Cesar Crivelli
em 06/03/2021 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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