A pior bolsa do mundo


Olho na tela

Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, eu gasto muito pouco tempo do meu dia olhando para a tela de cotações.

Por obrigação, eu já passei alguns anos da minha vida assim, período este que considero o que mais me emburreceu como investidor.

Atuei como trader de uma corretora e depois de fundos, de 2006 a 2012. Nessa época eu praticamente não saia para almoçar. Acordava às 7 horas da manhã para saber como os mercados ao redor do mundo tinham aberto.

Aí passava o dia todo lendo notícias e executando ordens no mercado de ações.

É curioso falar com pesar desta minha fase, quando vejo que muitos novos investidores desejariam ter hoje um dia a dia "empolgante" como este.

Na semana passada, um amigo me mandou uma mensagem, às 6 da manhã, perguntando qual site eu usava para ver "as aberturas das bolsas lá fora".

Acordei um pouco assustado, porque não costumo levantar tão cedo. Em tempos de quarentena, tenho me revelado um cara mais noturno. Descobri que trabalho muito melhor na parte da noite e madrugada adentro.

Por esse motivo, ao invés de perguntar por que raios ele queria saber do site  ele não é gestor de um fundo ou day trader para ter que se preocupar com isso  eu tratei logo de passar o link: https://www.investing.com/indices/major-indices.

ATENÇÃO: não tenham esse vício. É pura tara pelo jogo.

Mais tarde naquele dia, quando fui usar o celular para outra coisa, tratei de dar uma olhada na página e encontrei algo que me gerou a ideia para escrever a newsletter de hoje.

A pior Bolsa do Mundo


Ao selecionar PERFORMANCE na página Major Indices da Investing, você encontra um comparativo das bolsas do mundo todo, e é possível ordenar por performance no dia, no mês, no ano, em 12 meses e em 3 anos.

Se ordenarmos pela coluna YTD (no ano), voilà:

Ibovespa na lanterna entre as 50 maiores bolsas do mundo, com desvalorização de 32,45 por cento em 2020.

Mas calma que fica pior. Esta variação considera o Ibovespa em reais.

Se considerarmos o EWZ, o ETF do Ibovespa negociado na bolsa americana (por isso em dólar), a bolsa brasileira acumula queda de 52,73 por cento.

E por fim, se compararmos o EWZ contra uma cesta de bolsa de países emergentes (EEM), acabamos de atingir a nova mínima em mais de 16 anos.

Quando o brasileiro se mete a fazer bem alguma coisa, ele quer ganhar logo em todas as categorias!

O miserável é gênio!

Um índice miserável

Há algumas razões para a bolsa brasileira ser uma das piores do mundo, e não tenho a menor dúvida que um dos maiores problemas é a sua composição.

Se adicionarmos os problemas de segurança jurídica e estabilidade política então...

Mas vamos lá: atualmente o Ibovespa é composto por 75 ações, concentrado basicamente em dois setores: financeiro e commodities.


Composição Setorial do Ibovespa

Logo atrás vêm os setores de consumo e indústria manufatureira, totalizando mais de 70 por cento do índice.

Esse problema de concentração não é de hoje. Na década de 90, Telebrás já representou mais de 50 por cento do índice. Nos anos 2000, o Ibovespa foi fortemente dominado por commodities.

Até tiveram um momento glorioso, de forte crescimento, durante os primeiros anos do governo Lula. Mas também nessa época, assistimos bizarrices de ter, por exemplo, mais de 10 por cento de peso em OGX, uma empresa que quebrou e "retirou" milhares de pontos do Ibov.

Voltando a composição atual: não me parece que esses 4 setores serão os grandes vencedores da nova economia. Quando o gringo olha para o Brasil e o resto do mundo, não há dúvida de que ele deve encontrar destinos mais interessantes para o seu rico dinheirinho.

Na bolsa americana, por exemplo, mais de 30 por cento do S&P é composto por empresas de tecnologia, que diferentemente da era das ponto com (final dos anos 90, quando ocorreu uma bolha de empresas de tecnologia), hoje possuem forte posição de caixa e geração de lucros.

Enquanto o mundo digere amargamente os impactos do lockdown, as FAAMGs: Facebook, Apple, Amazon, Microsoft e Google (Alphabet), apresentaram impactos mínimos em suas operações, reportaram resultados recordes em algumas linhas de negócio e contrataram milhares de funcionários, enquanto milhões de americanos entraram na fila de seguro desemprego.

A consequência disso é o desempenho das ações dessas empresas na bolsa: + 9 por cento no ano, contribuindo em grande parte para a queda de só 11 por cento do índice.

Fonte: Bloomberg, XP.

Por isso que nos Estados Unidos é tão difícil bater o S&P 500. O índice é bem construído e reflete muito melhor a nova economia. Bastaria comprar um ETF da Vanguard e você estaria bem servido.

Já no Brasil não.

O Ibovespa é uma péssima régua para medir seus investimentos em ações. Tomar a decisão de entrar ou não na bolsa baseado nos pontos do índice é pior ainda.

Convido vocês a darem uma olhada na composição, ação por ação. Depois me digam se acham que ela reflete fielmente quem serão os grandes vencedores daqui 5 ou 10 anos.

Os melhores gestores de fundos do Brasil, aqueles que têm mandato de retorno absoluto de longuíssimo prazo, nem o consideram como benchmark.

Por isso, a pergunta se a bolsa a 79 mil pontos está cara ou barata deveria ser respondida assim:

A bolsa a 79 mil pontos apresenta MUITAS oportunidades para comprar boas empresas a preços bastante descontados.

A bolsa a 60 mil pontos apresenta AINDA MAIS oportunidades para comprar boas empresas a preços bastante descontados.

Isso é diferente com a bolsa a 120 mil pontos? Sim, em partes.

A bolsa a 120 mil pontos apresenta MENOS oportunidades de comprar boas empresas a preços bastante descontados.

Mas ainda sim, dentro de um universo de 350 ações  não só daquelas 75 que compõe o Ibovespa e, principalmente, naquela ponderação  é possível encontrar oportunidades para comprar boas empresas a preços bastante descontados.

Bom, e como se faz isso?

Basicamente existem dois caminhos.

O primeiro é delegar a seleção dessas ações para uma equipe profissional. Por meio de um fundo, o gestor seleciona de 15 a 25 ações que ele acredita serem as melhores opções de investimento para o longo prazo e pondera na carteira de acordo com o risco e grau de convicção.

A seleção dos melhores gestores de ações do Brasil fica ao meu cargo e do Luiz Felippo no Nord Fundos.

O segundo caminho é construir a sua própria carteira de ações. É claro que você não precisa fazer isso sozinho.

Se você nunca investiu por conta própria, eu sugiro que comece comprando as primeiras 2 ou 3 ações do ranking da carteira recomendada do Nord Dividendos. Essa é a nossa série mais conservadora e que vai te ajudar a sentir a temperatura da água da  renda variável.

Se você já investiu em algum fundo de ações, ou até já investiu na bolsa diretamente, eu sugiro que siga a carteira recomendada do Bruce na série O Investidor de Valor. Ao invés de focar só em empresas mais sólidas e boas pagadoras de dividendos, ele também busca oportunidades de ganhos mais expressivos de longo prazo.

Essas 3 são as séries de entrada da Nord, para quem está começando e também quer gastar um pouco com esses serviços, já que a mais "cara" é O Investidor de Valor, que custa apenas 23 reais por mês.

Há também a opção de assinar o Combo Essencial com as 3, que é o que eu faço na minha carteira pessoal. Tenho fundos de investimento e compro ações das duas séries também.

Pare de se balizar no Ibovespa.

Selecionar boas empresas (stock picking) é o único caminho para se ter sucesso no mercado de ações brasileiro.

Um abraço,


Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Renato Breia
em 08/05/2020 para Nord Insights

Possui 15 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Link Corretora, Galleas Asset, Rico Corretora e foi sócio da Empiricus Research. Formou-se em economia pela PUC-SP, tem especialização em Gestão de Fortunas pela Columbia University e é Planejador Financeiro, CFP®.

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