A ordem dos tratores altera o viaduto

Preços têm muito menos a ver com o mundo real do que gostaríamos

Cumprindo protocolo

Primeiro, o habitual: o dia é de mau humor mundo afora. O otimismo que tentou se instalar com resultados corporativos não se sustentou, e sagra bolsas europeias no vermelho e futuros de NY em queda - no aguardo, ainda, da ata do FED que será divulgada hoje à tarde e pode trazer novas pistas sobre a trajetória de juros por lá.

Por aqui, acompanhamos a tendência - de olho, também, na divulgação de mais duas pesquisas de intenção de voto hoje.

Cumprido o protocolo, permita-me dividir uma reflexão certamente mais proveitosa do que comentar o noticiário do dia.

Deus protege os bêbados, os loucos e as crianças

- Fulano, o que tu achas de XPTO4?

O assessor abre o gráfico e olha que a bendita ação sobe consistentemente desde seu IPO. Responde, então: “é uma excelente empresa”.

Testemunhei a cena há mais de 10 anos, quando ainda era iniciante no mercado. Eram tempos de franca euforia: com diversos IPOs acontecendo a cada semana, a estratégia dominante entre os investidores pessoa física consistia simplesmente em colocar 3 mil reais em qualquer oferta - qualquer oferta mesmo - e “flipar” (vender no dia da estreia).

Pode parecer loucura - e era mesmo. Mas Deus ajuda os bêbados, os loucos e as crianças: grande parte daquelas ofertas rendiam, naquele momento, retornos de dois dígitos para quem fizesse isso.

Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa

Mas não é de IPOs que quero falar. O foco aqui é a resposta do assessor à pergunta do cliente. Levei muito tempo para entender que estava diante de um erro clássico e muito grave: ele julgou a qualidade da empresa com base no comportamento das ações.

Lembrei-me disso porque me deparei, ontem mesmo, com um comentário acerca de uma empresa que me é bem familiar e cujas ações andaram subindo bastante. Disse um leitor numa rede social:

Empresa maravilhosa. Nunca lucrei tanto com uma empresa. A cotação só sobe e sobe muito.

Serei, então, o chato a pedir cuidado e afirmar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


Não sabendo que era impossível, foi lá e fez

Primeiro: uma ação é um número que pisca na sua tela e que, em um mundo ideal, deveria refletir fidedignamente a uma empresa que existe no mundo real, que produz, vende e (assim espero) lucra.

Uns economistas marotos formularam teorias nas quais isso de fato acontece, tal qual maná cai do céu, e isso virou um dogma - é mais fácil ao preguiçoso assumir que isso acontece mesmo. O problema é que a tal realidade - essa chata - insiste em teimar.

Na prática, você tem de um lado um número na sua tela; de outro, empresas que existem no mundo real, e o primeiro é uma representação tosca - o nível de tosquice depende da empresa - do que se passa na realidade.

Você realmente acredita que a situação fática de uma empresa e de seu mercado mudam da noite para o dia, justificando uma alta de 20, 30, 50 por cento das ações? Não, meu caro/minha cara; é muito mais simples que isso: em grande parte dos casos, muito provavelmente ninguém estava dando suficiente atenção àquilo, até que algum obstinado foi lá e, não sabendo ser impossível, fez.

A ordem dos tratores altera o viaduto

E isso pode acontecer tanto com ações de empresas que, no mundo real, são absolutamente excelentes - realidade típica das integrantes da carteira do Investidor de Valor - quanto com ações de empresas que no mundo real são, digamos assim, “sub-ótimas”.

Uma empresa “ruim” pode se tornar um ótimo investimento se, a despeito da sua “ruindade”, o preço de suas ações for “de ocasião” - em alguns casos, pode acabar na carteira do Valor Extremo.

Ou seja: afirmar, a partir do comportamento dos preços, que uma empresa é boa, é inverter a ordem dos tratores - e isso altera, sim, o viaduto.



Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Ricardo Schweitzer
em 17/10/2018 para Nord Insights

Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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