A Falácia do Seguro Barato

Investing is about taking risk

É inerente à vida do investidor tomar riscos, seja qual for o mercado.


E, pelos investimentos terem essa natureza, a pergunta mais frequente que vejo é: what keeps you up at night?


Em outras palavras: o que lhe preocupa?



Essa são perguntas que assolam a todos e eu poderia citar vários riscos.


E, acredite: acho saudável pensar sobre isso. Ainda mais neste bull market.


Apesar desse comportamento de alta do mercado, ele não foi o único a subir. Os riscos também cresceram.


Primeiro, era a tal guerra comercial sem acordo colocando o risco de recessão global em cima da mesa.


Agora, temos o risco Lula a considerar também – ainda mais se for elegível.


Sempre terá alguma coisa. Hoje, amanhã e sempre.


Logo, em meio a tudo isso, nosso instinto principal é de tentar fazer algo a respeito.


Será que deveríamos buscar proteções? Uma put, uma compra de dólar? Ouro, talvez?


Qualquer coisa que alivie a sensação de perda.


É um desejo quase que incontrolável de agir.

Ensinamento dos goleiros


Na volta do feriado da quarta-feira, almocei com outro analista da Nord, o Ragazzi.


Entre uma garfada e outra, ele me contava sobre um estudo que foi feito com goleiros de elite das principais ligas de futebol global.


Vou me apropriar desse estudo. Fique comigo que valerá a pena.


Vamos lá.


O objetivo era simples: avaliar a tomada de decisão deles em pênaltis.


A primeiro descoberta foi que, nessa área, a chance de o atacante chutar em qualquer canto – direita, esquerda ou centro – é a mesma: 33 por cento.


Nas defesas, descobriram que a distribuição de probabilidade era diferente. Se o goleiro ficasse no centro, teria 60 por cento de chance de pegar o chute que vem em sua direção – estatística essa bem maior do que tentar pular, mesmo que ele acerte o lado.  


Logo, a estratégia racional de todos os goleiros deveria ser ficar parado. Mas, você já viu isso acontecer? Pouquíssimas vezes, certo?


É o que o estudo mostra também. Em 94 por cento das vezes, o goleiro decide pular para algum dos cantos.




Quando perguntados sobre o porquê disso, relatam que: “pelo menos possuem a sensação de estar fazendo algo”.


No final, é um ato para deixar a consciência tranquila.


Mas isso só prejudica suas defesas.


E, assim como os goleiros, fazemos o mesmo com nossos investimentos.


A ânsia por hedge


Assim como no caso dos goleiros, nos investimentos temos um ímpeto grande em agir.


Em meio a tantos riscos que nos rodeiam, a ânsia por nos proteger é quase que incontrolável.


A ideia de comprar seguros – seja via opção de venda (as famosas put), um pouco de dólar ou até o ouro – salta aos olhos e parece uma ótima alternativa.


Mas, no final, você cai em uma encruzilhada.


Aqui você tem duas opções: ou compra sempre, protegendo seu portfólio, mas pagando por isso – seja em prêmio das opções ou em custo de oportunidade de investir nos outros ativos.


Ou, alternativamente, usa eles de forma esporádica, ficando desprotegido maior parte do tempo e correndo o risco de estar sem os "seguros" justamente quando precisa – até porque, ninguém sabe quando serão necessários.


Esse é o primeiro dilema que você enfrenta.


O segundo é o da eficácia da alocação.


A eficácia das proteções


Acho linda a teoria sobre proteções.


É belíssima a ideia de você comprar seguros. Principalmente quando eles são vendidos supostamente baratos.


É cativante e dá uma certa sensação de alívio para tomar risco.


Mas, na prática, os efeitos dessa proteção acabam custando mais caro do que lhe dão algum benefício.


Isso fica bem claro em um estudo de 2017, da gestora americana GMO.


Utilizando a bolsa americana, simularam a seguinte ideia: será que comprar seguros de forma recorrente funciona?


Para isso, ele especifica quatro estratégias. Aqui, focaremos em duas: (i) comprar a bolsa americana (linha azul); (ii) vendendo puts de 1 mês do S&P500 e sempre e investindo o prêmio na renda fixa (linha verde).


Por essa lógica, vender puts seria o pior negócio possível – uma vez que estaria sempre vendendo elas baratos.


Os resultados mostram uma realidade bem diferente.



Desde 1983, quando começaram a listar as opções por lá, o rendimento da bolsa americana foi cerca de 11,2 por cento ao ano.


Enquanto isso, somente vendendo a put e investindo na renda fixa, trouxe um retorno de 10,9 por cento ao ano – por favor, não tente isso em casa.


Quase o equivalente ao S&P!


Ou seja, a parte que pagou os prêmios da opção teve basicamente todo seu retorno corroído.


Então, esqueça essa ideia de seguros baratos: se eles existissem já tinham quebrado todas as seguradoras.


Opções custam caro e pagar recorrentemente para tentar hedgear seu patrimônio comerá todo seu retorno.


É preciso usar com muita parcimônia, o que eu deixo para os gestores experientes fazerem.


Agora, voltando para a nossa realidade brasileira. Todo mundo nos pergunta sobre fazer hedges para as carteiras do Nord Fundos.  


Contudo, como nosso mercado de opções é pequeno e pouco evoluído, muito se fala de fundo cambial para proteção.


Mas seria efetivo?


Para testar essa ideia, construí três portfólios com as seguintes características:


 (i)  Com hedge (linha azul): 40 por cento no CDI; 30 por cento na bolsa; 20 por cento no IMA-B e 10 por cento fundo cambial.


(ii) Com hedge e mais risco (linha cinza):  20 por cento no CDI; 20 por cento no IMA-B; 50 por cento em bolsa e 10 por cento em fundo cambial.


(iii) Sem hedge (linha laranja): 50 por cento em CDI; 30 por cento em bolsa e 20 por cento em IMA-B.


Esses três portfólios testam a ideia de se faz sentido (ou não) alocar em proteções.


Se os portfólios (i) ou (ii) renderem mais, fazer hedge funciona. Caso contrário, não.


Então, vamos lá.


Simulei o retorno dos três portfólios desde 2002 e o resultado é o seguinte:



Note que, simplesmente ajustando a alocação, você se sai melhor.


Mais uma vez: apesar da teoria bonita, a prática é bem mais cruel.


Pessoalmente, prefiro algo mais simples.

Simplifique


No final, investir em fundos cambiais é suavizar as quedas quando o mercado cai.


É você protegendo seu portfólio para dormir melhor à noite


Mas, assim como no caso dos goleiros, você está só se prejudicando.


Lembre-se: você paga um prêmio por isso.


E, como mostramos na tira anterior, isso custa caro.


Então, se você está no ímpeto por se proteger, são grandes as chances de você estar correndo mais risco do que deveria.


Sendo assim, proponho o seguinte: tire um pouco o pé da bolsa e tenha mais caixa (dinheiro em fundo DI ou Selic com liquidez diária).


O importante é você construir um portfólio que tenha bons ganhos, mas que ao mesmo tempo seja resiliente a longo prazo.


Ter uma alocação de portfólio bem equilibrada vale mais que muita proteção.


Por isso, nós focamos nessa estratégia no Nord Fundos, uma carteira bem equilibrada entre fundos de Renda Fixa, Multimercados, Ações e Long Biased.


Acreditamos nisso.


Um abraço


Luiz Felippo


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por Luiz Felippo
em 24/11/2019 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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