A esperança é a última que morre

Mercados acionários nos Estados Unidos embutem uma forte esperança de crescimento com a alta nas receitas e lucros das empresas


A riqueza

Quem não gostaria de ganhar na loteria, não é mesmo? Trata-se daquela esperança de mudar de vida em um passe de mágica, mesmo que as chances sejam diminutas.

Nos Estados Unidos, a exemplo do Brasil, temos várias loterias, com sorteios durante toda a semana. A mais famosa de todas é a PowerBall, que é sorteada duas vezes na semana, toda quarta-feira e sábado.

A chance de ganhar o grande prêmio é de uma a cada 175.223.510, o que torna o sonho da “casa própria” difícil de ser realizado por este caminho. Se acontecer, entretanto, podemos comprar uma mansão, ou até mesmo um jatinho particular

Há, entretanto, uma grande diferença entre o pagamento do prêmio em relação ao Brasil. Nos Estados Unidos o vencedor pode optar por dois caminhos: i) receber todo o prêmio à vista, com um desconto grande de impostos; ii) ou optar por receber o valor divido em 30 parcelas anuais, que são corrigidas pela inflação.

O prêmio a ser sorteado neste próximo sábado, 22 de agosto, está previsto em 23 milhões de dólares. O maior prêmio já distribuído foi de 1,58 bilhão de dólares, dividido entre 3 ganhadores.

Se o vencedor optar por receber o dinheiro à vista, receberá 16,6 milhões de dólares na sua conta bancária, livre de impostos. Todavia, se escolher os pagamentos anuais, o valor será de aproximadamente 20,5 milhões de dólares, todo ano, por trinta anos, também líquidos de taxas, como mostra a simulação abaixo.

Fonte: USA Mega


Na época em que morei nos Estados Unidos, por muitas vezes tentei a sorte, com a esperança de ficar milionário, afinal, o que são 3 dólares diante da possibilidade de ganhar milhões? Não deu muito certo… o máximo que consegui foi receber 10 dólares, que é o prêmio mínimo. Mesmo assim, por muitas vezes, mantive a esperança e continuei apostando.


O mercado de ações e a esperança

Atualmente vejo uma certa similaridade entre o comportamento dos investidores e dos apostadores na loteria, principalmente no que diz respeito às Ações de tecnologia.

Se pararmos para pensar friamente, quando estamos apostando na loteria do ponto de vista racional, dado que as chances de sucesso são ínfimas, não faria muito sentido apostar, mas como a perda é relativamente baixa e o prêmio é estupendo, emocionalmente temos tendência a fazer a aposta.

Todavia, na seara dos investimentos, a história muda de figura, visto que estamos “apostando” — detesto esse termo quando se trata de investimentos — no futuro de uma determinada companhia.

Mas nesse caso o custo não é pequeno. São as economias provenientes de nosso trabalho e horas vida dedicadas a uma atividade profissional, que de certa maneira, poderiam ter sido aplicadas de uma outra forma, ou em menor quantidade — um difícil tradeoff existencial, principalmente para essa geração mais nova.

Apenas neste ano, o índice Nasdaq — composto majoritariamente por empresas relacionadas ao setor de tecnologia — bateu 34 vezes recordes de fechamento e acumula alta de aproximadamente 25 por cento no período — e aconteceu no momento em que vivemos uma grande crise mundial, com economias devastadas e que levarão vários trimestres, ou mesmo anos, para se recuperar.

O destaque neste verdadeiro frenesi tem sido as Ações da Apple, que recentemente atingiram novo recorde, levando a companhia a totalizar um valor de mercado superior a 2 trilhões de dólares  — montante superior ao PIB do Brasil e cerca de 10% do PIB dos Estados Unidos — tornando-a a primeira companhia americana a alcançar este valor na história.


Fonte: Acorns

Apple

Tamanha valorização no preço das Ações da Apple é sustentada pela visão dos investidores de que, apesar da crise, as perspectivas para a companhia são magníficas, ou seja, ela continuará a crescer suas receitas e lucros, praticamente Ad infinitum.

De fato, trata-se de uma história de grande sucesso, visto que a Companhia já esteve à beira da falência e hoje possui excelente produtos, uma clientela fidelizada e um grande market share nos mercados em que atua.

Mas este analista que vos escreve tem uma “pulga atrás da orelha” quanto à continuidade do crescimento da companhia a taxas tão altas, como as previstas pelo Sr. Mercado.

As expectativas de 33 analistas de mercado apontam para uma receita, em 2021, de 307 bilhões de dólares, o que representa um crescimento de +12 por cento em relação ao projetado para este ano — onde temos pouca incerteza, não é mesmo? — e de +18 por cento em relação ao que foi contabilizado no ano de 2019.

Quando uma empresa é pequena seu crescimento é mais fácil, visto que ela pode conquistar mercado, seja pelo crescimento dele, ou por meio do insucesso da concorrência.

Todavia, quando estávamos falando de empresas enormes, com exposição global — como é o caso a Apple — que já possuem grande fatia de mercado, o crescimento a taxas cada vez mais altas é difícil. O gráfico abaixo mostra o crescimento das receitas da companhia ao longo da última década.

Em seu último release de resultados, a Apple comentou que globalmente possui cerca de 1,5 bilhão de dispositivos ativos pelo mundo.

Grosseiramente, se considerarmos que cada cliente da companhia possui 2 dispositivos, estamos falando de uma clientela em torno de 750 milhões de pessoas, ou aproximadamente 10% da população mundial.

Digo tudo isso pois, se excluirmos as pessoas não economicamente ativas e também aquelas que não possuem renda suficiente para comprar um produto da Apple, a fatia de mercado da empresa, em termos da população, já é relativamente grande.

Para continuar expandindo suas receitas e alcançar as projeções do mercado, ela precisará conquistar ainda mais clientes, ou aumentar preços, sendo estas opções, no cenário econômico atual, um pouco difíceis.

Isso sem falar nos lucros — sim, caro investidor, os lucros, em algum momento, importam. O mercado estima que em 2021 a Apple reportará um lucro em torno de 64 bilhões de dólares, o que resulta em uma margem líquida de 20 por cento. Em termos de lucro por ação, o resultado seria de 15 dólares.

Hoje as Ações da companhia estão cotadas em torno de 490 dólares.

Se dividirmos este valor pelo lucro por ação esperado para o próximo ano, chegamos a um múltiplo Preço/Lucro 2021 de 32x.

Em um cenário hipotético, caso seja possível retornar ao acionista em forma de proventos os 65 bilhões de dólares — ou 15 dólares por ação —  no próximo ano, e considerando o mesmo valor para os próximos 32 anos, o investidor que comprar as Ações da Apple, hoje, terá seu capital de volta.

Obviamente, a expectativa é de que a companhia consiga, ao longo das próximas décadas, ao menos reajustar o preço de seus produtos e talvez melhorar um pouco a margem líquida, o que resultaria em um lucro por ação um pouco maior, assim, o investidor receberia seu capital em um tempo menor.

Mas e se algo der errado e a companhia encontrar uma pedra do meio do caminho? E se não for possível continuar crescendo as receitas nessas taxas? E se houver gastos inesperados? E se o custo dos componentes utilizados na fabricação da mão de obra subirem? E se a companhia tiver que pagar mais impostos? Essas são algumas das perguntas que nós, analistas, nos fazemos todos os dias, quando avaliamos empresas e traçamos cenários.

O exercício abaixo considera, na primeira tabela, um eventual insucesso da companhia em crescer as receitas na taxa esperada pelo mercado e mostra ao final qual seria o múltiplo preço-lucro esperado.

Já a segunda tabela mostra o mesmo exercício feito para as receitas, todavia, adiciona um componente de perda de margem líquida, por conta de alguma eventualidade, o que resultaria em um menor lucro por ação.


Em um cenário ruim, com crescimento zero nas receitas e perda de margem de 2 pontos percentuais de margem líquida, o múltiplo Preço/Lucro subiria para 41x, ou seja, bastante tempo para o investidor receber seu rico dinheiro de volta — considerando aquele cenário hipotético de total distribuição dos lucros da empresa em forma de dividendos.

De toda maneira, o ponto que eu gostaria de elucidar por aqui é que o mercado já paga um prêmio alto pelas Ações da companhia, dado o elevado tempo de retorno esperado — hoje cerca de 32 anos pela ótica do índice Preço/Lucro. E se colocarmos na conta que algo pode dar errado no meio do caminho, mesmo que temporariamente, o retorno do investimento seria ainda maior.

Tenha cuidado com as queridinhas do mercado, pois as expectativas em relação ao futuro dessas companhias, no momento atual, são um verdadeiro céu de brigadeiro.

Nos vemos na próxima semana! Até lá!


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por Cesar Crivelli
em 22/08/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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