A educação do amanhã

Uma mudança no saber

Alguém precisa fazer algo

O sistema educacional “atual” está (muito) defasado.

Pare para pensar: além do fato de que hoje existe a educação a distância, o que mudou na forma de ensinar e formar profissionais nas últimas décadas?

Eu respondo: praticamente nada!

A educação a distância no ensino superior não é nada além do que um novo canal (com mais alcance e menos custo) para entregar o mesmo conteúdo que é teórico demais e útil de menos para a futura vida profissional dos alunos.

Não quero defender que um diploma universitário não tem seu valor, mas tenho certeza de que você conhece algumas (várias) pessoas incrivelmente bem-sucedidas que atuam em uma área completamente diferente daquela em que se formaram ou que simplesmente nem possuem uma graduação.

Isto é apenas um indício de que algo pode não estar certo dentro das academias, ao menos para aqueles que pretendem exercer uma profissão no mercado de trabalho e não na carreira docente.

Eu poderia gastar horas apontando diversas deficiências do nosso sistema de ensino, mas acredito que é bem evidente que ele ficou para trás no quesito evolução, enquanto nossa sociedade avançou a passos largos em diversas áreas ao longo dos últimos 70 anos.

Mas o que realmente me incomoda é o fato de que ninguém parece se preocupar com isto.

Talvez por questões culturais (ou apenas força do hábito), o planejamento dos pais para seus filhos ainda se resume a algo como: “quero que meu filho faça um bom curso em uma boa universidade”.

Alguém (finalmente) fez algo

Sempre que paro para pensar neste tema acabo ficando um pouco triste e não muito empolgado com o futuro da nossa sociedade.

Entretanto, fiquei bastante animado quando a gigante de tecnologia americana Google (NASDAQ: GOOG) anunciou o lançamento do programa Google Career Certificate (Certificado de Carreira do Google).

O Google irá começar a oferecer cursos profissionalizantes de curta duração, com apenas seis meses de duração, mas irá atribuir a estes certificados o mesmo peso de um diploma tradicional de quatro anos durante seus processos de recrutamento.

Em um primeiro momento serão oferecidos três cursos relacionados a área de tecnologia (é lógico):Gerenciamento de Projetos, Analista de Dados e Designer UX. Os cursos serão desenvolvidos e ministrados por profissionais que atuam em cada uma destas áreas dentro da companhia.

Ainda não sabemos os preços dos cursos, mas a empresa já informou que eles custarão apenas uma fração do que custam os diplomas tradicionais. Além disso, o Google disse que pretende ajudar os alunos a encontrarem o emprego ideal, mesmo que ele não seja dentro da própria companhia.

A iniciativa inovadora gerou controvérsia. A primeira reação de algumas pessoas foi defender que a empresa não poderia se comparar a uma instituição de ensino formal.

E eu adorei, isto é um excelente sinal. Se incomodou é porque quem estava confortavelmente acomodado levou um susto e começou a se preocupar.

Será que os caros, longos e chatos cursos superiores estão com os dias contados?


A coragem para inovar

Ainda é muito cedo para tentar prever qual será o impacto da iniciativa do Google no sistema educacional vigente. Em algumas áreas de ensino é pouco provável que este modelo seja aplicável, como na medicina.

Mas a iniciativa é admirável.

Ao mesmo tempo em que é simples, resolve um problema que já está escancarado há muito tempo, e é genial por conta de um pequeno detalhe: quem não quer trabalhar no Google?

Fico imaginando como foi a reunião na qual a ideia foi apresentada pela primeira vez, alguém simplesmente levantou a mão e disse: que tal se a gente cobrar para treinar nossos potenciais futuros funcionários?

O simples fato de transformar um custo em uma receita, por si só, já torna a ideia genial. Só que de quebra, como externalidade positiva, esta inovação pode revolucionar a indústria da educação superior como um todo.

Se o Google faz um curso assim e fala que para ele isto vale como uma graduação tradicional, logo outras empresas vão começar a falar que para elas também vale ou podem até lançar seus próprios cursos.

No longo prazo, as pessoas podem deixar de estudar coisas inúteis e focar em aprender o que realmente faz diferença no mercado de trabalho.  Com este pequeno passo que está sendo dado agora, a produtividade do mundo pode ser maior amanhã.

O que mais me admira nesta história é que, apesar de ser uma empresa de tecnologia, a inovação proposta pelo Google não tem nada a ver com um avanço tecnológico, mas, sim, com uma evolução de mentalidade.

Muitas vezes empresas que estão no ramo de tecnologia ou que simplesmente estão utilizando a tecnologia para digitalizar sua operação são confundidas com empresas inovadoras, mas uma empresa inovadora é muito mais do que isso.

Inovar não é olhar para dentro de casa e pensar “como eu posso utilizar melhor os ativos/recursos que tenho disponíveis hoje?”. Isto é muito importante, mas se chama ser eficiente.

A inovação não vem de dentro pra fora, ao contrário, precisa vir de fora pra dentro para ser realmente impactante e relevante.

As empresas capazes de inovar são aquelas que primeiro olham para uma dor, uma necessidade, um problema que existe na sociedade, e então começam a traçar possíveis soluções, que muitas vezes acabam demandando a criação de um novo produto ou serviço.

Inovar é ter a coragem de olhar para o status quo e não se limitar a ele.

“Algumas pessoas dizem para dar aos clientes o que eles querem, mas esta não é a minha visão. Nosso trabalho é descobrir o que eles vão querer antes que eles mesmos saibam disso. É como Henry Ford disse uma vez: se eu perguntasse ao clientes o que eles queriam, eles teriam me respondido um cavalo mais rápido. As pessoas não sabem o que querem até que você mostre isso pra elas. Por isso eu nunca acreditei em pesquisas de mercado. Nosso trabalho é ler as coisas que ainda não estão escritas.” - Steve Jobs.


E como ficam as educacionais nesta história?

Trazendo todo este debate para algo mais próximo da realidade das empresas que temos na nossa bolsa brasileira, os primeiros questionamentos que emergem na minha cabeça são relativos ao setor educacional, onde temos quatro representantes com capital aberto no Brasil.

Caso a mudança cultural que comentei acima venha a se tornar uma realidade, como ficarão Cogna (COGN3), Yduqs (YDUQ3), Ser Educacional (SEER3) e Anima Educação (ANIM3) no futuro?

Será que elas vão perder espaço para as iniciativas educacionais que as grandes empresas podem criar?

Será que um novo player focado neste tipo de educação pode emergir?

Será que alguma delas tem a capacidade de se adaptar e assumir um novo papel?

Estes são apenas alguns dos questionamentos que emergem em função da hipótese criada. E existem diversos “se” no caminho para que estas perguntas cheguem a fazer sentido.

Mas investir é uma arte, principalmente para aqueles que buscam investir em empresas de growth (crescimento). E acredite, investir não é a arte de encontrar as respostas certas, é a arte de fazer as perguntas certas.

No momento, o máximo que consigo fazer é admirar a iniciativa inovadora do Google. Após os primeiros sinais de sucesso (ou fracasso) da corajosa empreitada, poderei começar a pensar nas perguntas certas.

E você, o que achou da iniciativa?

Um abraço,


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por Rafael Ragazi
em 28/08/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira como Analista na Investor Consulting Partners (assessoria especializada em M&A e finanças corporativas).Posteriormente, foi Gerente de Novos Negócios na Wise Up|Somos Educação (enquanto investida da Tarpon Investimentos) e Sócio responsável pela área comercial e membro do comitê de investimentos da Luminus Capital Management.

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