A bolsa te paga para esperar.

The big money it's not buying and selling, but waiting”. Charlie Munger

Aquele cheirinho de bull market

A confiança dos investidores na bolsa é nítida.


Hoje esse é o assunto quando vou na fisioterapia de manhã; no táxi a caminho de casa; e no jantar com os amigos.


Até no almoço de Dia dos Pais.


É o tal do “FOMO” (Fear of missing out), você vê o seu vizinho ganhando dinheiro em ações e, logo, também não quer ficar de fora dessa.


Fui, então, avaliar a captação dos fundos de ações como uma leve proxy desse otimismo. Já sabia que estava alta pelas nossas conversas com os gestores, mas não esperava que estivesse desta magnitude.


Realmente o volume está alto, assustador até. Passados 7 meses do ano, estamos quase batendo o recorde de captação que foi 2017 –  que tinha sido o melhor ano da classe (37 bilhões).

Em azul, multimercados. Em cinza, Fundos de Ações


E, para piorar: fundos de ações estão até competindo pelo primeiro lugar de captação com os fundos multimercados, o que não vemos desde 2007.


Só no bull market mesmo para essas coisas acontecerem.

Instinto natural

No bull market é assim. Todo mundo quer ter a maior posição possível em renda variável.


Normal. Quanto mais bolsa eu tiver, mais eu ganho.


Mas, a história é sempre a mesma. A bolsa sobe muito, o investidor finalmente toma coragem e começa a investir em fundos de ações.


Do outro lado, quando a bolsa cai muito, o cotista tende a sacar todo o dinheiro e correr para a segurança da renda fixa.



Nada diferente da estratégia  “comprar caro e vender barato” que vemos nas ações, só que na versão fundos.


Não preciso nem dizer que isso sempre cria os piores resultados possíveis, né?


Mas, mesmo não sendo nada racional, parece-me que existe um instinto natural de "preservação" do patrimônio.


Vemos isso acontecer diversas vezes: no bull market do início dos anos 2000, na crise financeira de 2008 e no segundo governo Dilma.


É um zigue-zague infinito que, no final, só serve para atrapalhar a busca de grandes altas da bolsa.

-30 por cento?!


Pergunte-se: você resgataria as cotas de um fundo que caiu 30 por cento?


Antes de você responder, deixe-me dar um pouco de contexto.


O ano era 2008, o caos se instalava no mercado. Correria e gritaria para tentar liquidar tudo o mais rápido possível e tentar salvar o pouco do que ainda não havia evaporado.


Infelizmente (ou felizmente?), eu não estava lá para comprovar. Mas, pelas histórias que escuto, realmente é um momento aterrorizante.


Pouco tempo antes, ex-sócios da famosa gestora FAMA resolveram sair para montar um novo fundo.


A estreia, imagino eu, não foi a dos sonhos. A casa mal tinha completado 2 semanas e já havia amargado um prejuízo de 30 por cento!



Sim, quase um terço do PL do fundo havia sumido em um pouco menos de meio mês.


E, aí? Você resgataria?


Não minta para si próprio.

+1.883 por cento!


Vou responder pela maioria:  SIM.


Grande parte faria isso, não tenho dúvidas. Nessas horas o desespero bate e tudo que você quer é segurança.


Tanto que, ao olhar o gráfico da segunda tira, verá que o percentual alocado em fundos de ações caiu no período – saindo de 12% para 10% da classe.


Foram bilhões e bilhões resgatados.


E, cá entre nós, esse é o maior erro de todos. Equivale-se ao fato de vender uma ação com bons fundamentos só porque as notícias negativas derrubaram o seu preço.


Se você fez isso a época, olhe o que você perdeu:





Isso mesmo, um retorno de 1.883 por cento!


E, se você não descobriu que fundo é esse, eu lhe conto: é da Brasil Capital, do nosso caro André Ribeiro.


Histórias assim não são frequentes, mas existem algumas poucas espalhadas pelos mercados – tanto locais como internacionais.


Então, aqui vai mais um exemplo.


Ficou famosa também a história dos cotistas do fundo Magellan, onde o Peter Lynch era gestor.


O retorno dele foi espetacular: em média, 29 por cento ao ano por 13 anos.


E, curiosamente, a média dos cotistas conseguiu perder dinheiro.


Sim. Mais gente perdeu dinheiro do que ganhou.


Como é possível? Simples: deixaram-se enganar pela sua própria psicologia. Compravam as cotas caro e vendiam barato.


É a receita para perder dinheiro. Não tem jeito.


Pois é, aconteceu em 1990 e acontece hoje. É sempre aquele lema: a história não se repete, mas sempre rima.


Então, não se entusiasme muito com o bull market. Ganhe dinheiro fazendo boas compras e, principalmente, controle seu psique quando mercado cair.


Porque, no final, você será recompensado.


Finalizo esse texto com uma frase do Charlie Munger: “the big money it's not buying and selling, but waiting”.


Em tradução livre: você não ganha dinheiro comprando ou vendendo ações, mas esperando.


Então, meu caro, espere.


Um grande abraço e feliz dia dos pais atrasado!

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Luiz Felippo
em 12/08/2019 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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