A beleza da competição

O mercado de corretoras segue aquecido e cada vez mais competitivo  o que tem sido ótimo para os consumidores.


No ano passado, o BTG Pactual inovou no primeiro Fundo DI taxa zero da indústria. Aos poucos, fomos vendo as outras casas se rendendo ao movimento. Recentemente, até a XP aderiu, com a criação de um Fundo semelhante por lá.


A Warren fez uma parceria com a gestora ARX para ter uma estrutura onde não há a cobrança do rebate. A PI está em um modelo parecido, oferecendo cashback.


A Rico, também do grupo XP, resolveu se juntar à Clear no modelo de corretagem zero para Ações.


Até o Nubank resolveu entrar na briga recentemente, comprando a Easynvest. Talvez, buscando repaginar a corretora que, tipicamente,  era muito usada para Tesouro Direto.


Ilustração que mostra um ringue com seis lutadores. Há três pares de lutadores: XP versus BTG Pactual; Órama versus Easynvest; Rico versus Clear.

Fonte: Freepik e Nord Research


O interessante é que parece que todos entraram no ringue de boxe para lutar, mas quem sai ganhando é você, consumidor. Você é o grande vencedor dessa competição toda.


Ainda assim, em meio ao silêncio da noite, ainda vemos algumas tramoias serem feitas nesse mercado.

Às vezes no silêncio da noite…


A música é de Caetano Veloso,  até um pouco triste eu diria. Mas em um trecho ela diz o seguinte:


[...] E se eu me interessar por alguém?

     E se ela, de repente, me ganha?[...]


É claro que a música pouco tem a ver com o assunto, mas me colocou a pensar: nesse mercado aquecido das corretoras, afinal, ninguém quer correr o risco de o seu cliente “se interessar por alguém”.


Ao fim do dia, por trás do discurso pomposo da competição, há uma guerra para atrair e reter clientes. A XP sendo a líder, naturalmente, acaba sendo a mais atacada.


Não à toa o BTG, que está com os bolsos cheios de dinheiro após o follow on, promoveu ataques aos escritórios AAI (Agente Autônomo de Investimento) de Benchimol.


A XP, claro, não ficará de braços cruzados. Vai buscar contra-atacar e se defender, criando barreiras para essa transição entre plataformas.


Uma dessas medidas, claro, impacta diretamente você, cotista de fundo: a criação dos Fundos espelho.


Essa é uma prática que tem se tornado cada vez mais comum nas corretoras, com a XP sendo a protagonista. Vou explicar como isso funciona e por que é um problema para você, que é investidor de Fundos.


Imagine que, no distante mundo de Brasilândia, uma proeminente gestora de multimercado chamada FLAM decide distribuir seu Fundo nas corretoras.


A maneira tradicional de se fazer isso é criar um FIC (Fundo de Investimento em Cotas) que investe no Master.


Sendo assim, o FLAM FIC FIM compra cotas do FLAM Master FIM. Este, por sua vez, faz as alocações em Ações, Renda Fixa, Ouro etc. Tudo em que a equipe da gestora FLAM decidir investir.



Fluxograma mostra as seguintes informações:

FLAM MASTER FIM investe $ em Ativos financeiros; juros; câmbio; Bolsa; commodities.

FLAM FIC FIM compra cotas do FLAM MASTER FIM.

Investidores investem em FLAM FIC FIM.


Fonte: Nord Research





A partir deste modelo, seja qual for a corretora, todo cotista tem acesso ao mesmo veículo: FLAM FIC FIM.


A isonomia é completa. Nos fechamentos e aberturas, todos os clientes têm o mesmo tratamento, independentemente de qual distribuidor vieram.


Esse é o jeito mais simples de se operacionalizar a distribuição dos Fundos. Além disso, caso você estivesse insatisfeito com a sua corretora, poderia simplesmente pedir portabilidade para outra.


Era simples assim, apesar da chata papelada. Entretanto, em um mundo onde as corretoras estão disputando cada cliente, esse modelo não é promissor para elas.


Nesse novo mundo, é muito mais interessante que elas abram seus próprios FIC e invistam no gestor desejado. Eis que, de um dia para o outro, nasce um Fundo espelho: FLAM Advisory FIC FIM.



Fluxograma mostra as seguintes informações:

FLAM MASTER FIM invest $ em Ativos financeiros, juros, câmbio, Bolsa, commodities.

FLAM FIC FIM compra cotas do
FLAM MASTER FIM.

Investidores investem em FLAM Advisory FIC FIM.


Fonte: Nord Research



E, no silêncio da noite, pedem ao gestor para que convoque uma assembleia de cotistas para promover a cisão do Fundo e a transferência deste para o Fundo FLAM Advisory FIC FIM (espelho).


Como os documentos são enfadonhos e cheio de tecnicalidades, ficarão perdidos na sua caixa de entrada. Poucos irão lê-lo. Com um grande número de abstenções, a transferência é aprovada e você, que era cotista do FLAM FIC FIM, torna-se cotista desse Fundo espelho…


Qual o problema dessa troca? Daquele momento em diante, você perde toda a possibilidade de portabilidade.


Mesmo que as corretoras BTW, Oremos ou Euler lhe ofereçam uma melhor combinação de serviços, você não poderá transferir a custódia do seu Fundo FLAM Advisory FIC FIM.


Resumindo a história: a corretora carimbou o seu dinheiro. Para quebrar a relação, agora somente pedindo resgate e pagando imposto.


Com que intuito ela faz isso? Agora, mesmo que a corretora XPTO perca um grupo de AAIs, o custo do cliente em troca de distribuidor acaba aumentando bastante  permitindo menor fuga do capital da corretora.


Pode até acontecer, mas será mais dificultado.


Como empresário, acho a jogada bem inteligente. Como analista de Fundos e cotista, nosso dever é batalhar para evitar esse tipo de prática.


É hora de agir.

Hora de agir


Apesar dos nomes inventados, a realidade é exatamente essa. Apesar de outras corretoras fazerem o mesmo, o principal expoente desse movimento é a XP.


Só para se ter uma ideia, dos 440 Fundos disponíveis, 110 já são em formato de espelho. Se eu fosse chutar, diria que estão buscando ter o controle dos demais.


Aos novos Fundos entrantes, não há discussão. Aqui, o Fundo já entra na plataforma como espelho, justamente porque eles querem evitar passar por todo o rito descrito anteriormente.


Não temos muito o que fazer.


No entanto, para os Fundos antigos, as corretoras precisam pressionar as gestoras para convocar assembleia de cotista e fazer a transferência de custódia.


É exatamente o que tem acontecido no caso da Occam. O fundo de Retorno absoluto deles será o próximo da lista a se tornar um espelho.


Imagem mostra o trecho de um documento (Comunicado Administrador BNY Mellon) que consta: VII. Proposta da GESTORA para que o FUNDO seja cindido, a fim de segregar os cotistas que são distribuídos pela XP INVESTIMENTOS CCVTM e pela Rico, além de empresas a ela ligada, dos demais cotistas que são distribuídos por outros distribuidores. Tais cotistas, após a cisão, passarão, em caso de aprovação, a ser cotistas do OCCAM RETORNO ABSOLUTO ADVISORY FUNDO DE INVESTIMENTO EM COTAS DE FUNDOS DE INVESTIMENTO MULTIMERCADO, inscrito no CNPJ nº 34.475.592/0001-10, que possui características idênticas às do FUNDO.

( ) Aprovar
( ) Reprovar
( ) Abstenção
( ) Conflito


Fonte: Comunicado Administrador BNY Mellon


Aqui podemos agir. Quem decide se essa transferência ocorre ou não é você, cotista. Não importa o que a corretora, administradora ou quem quer que seja acha.


O procedimento é bastante simples. Por trás das tecnicalidades, no final, há um formulário a ser preenchido e enviado ao administrador  o e-mail de endereço está no documento.


Por isso, fique alerta! Confira a sua caixa de e-mail e, caso você seja convidado para essa assembleia (ou qualquer outra), participe e reprove!


Não importa a corretora ou gestora, faça valer a sua vontade. Vamos preservar o nosso direito à portabilidade enquanto ele ainda existe em alguns Fundos da nossa indústria.


Aos assinantes do Nord Fundos, é exatamente o que eu vou recomendar. Aos Fundos que eu invisto, será exatamente o que eu vou fazer.


Um grande abraço a todos.


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por Luiz Felippo
em 20/09/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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