3 motivos para vender uma ação

“O Value Investing é simples de entender, mas difícil de implementar. A parte difícil é disciplina, paciência e bom senso.”

Seth Klarman, Baupost Group




Na live de ontem, onde abordamos se A bolsa já subiu demais? É hora de vender?Muitas pessoas me perguntaram se eu tinha seguido a recomendação do Ricardo na semana passada e vendido as minhas ações de VVAR3.

A resposta é: sim, eu vendi.

Respeitei as regras de compliance da Nord, que me obriga a esperar 5 dias desde a recomendação de venda, abri o home broker e vendi as 40.900 ações a 15,40 reais.

Sem dó.

No minuto 15:15 do vídeo, eu expliquei rapidamente o motivo para as mil pessoas que nos acompanhavam ao vivo.

Ainda assim, acho que vale a pena reforçamos aqui os fundamentos por trás de uma venda de uma ação. Serve para VVAR3 ou para qualquer outra.

Antes de apresentar os 3 motivos, é importante dizer que eu não posso comprar ou vender qualquer ação da bolsa baseado nos meus julgamentos ou no momento que eu desejar operar.

A Nord é extremamente rigorosa no controle e normas de compliance. As minhas operações pessoais precisam respeitar, além das regras dos órgãos de regulação, as regras internas (ainda mais rígidas, para evitar qualquer possibilidade de alguém envolvido com a empresa se beneficiar).

Dessa forma, eu escolhi não inventar. Eu faço uma seleção entre as ações do ANTI-Trader e Nord Small Caps, sempre operando um tempo depois das recomendações.

Seja uma recomendação de compra, seja de venda.

Aliás, tão importante quanto saber qual ação comprar (e quando comprar), é saber quando vender.

E acima de tudo: respeitar a decisão do analista que entende MUITO mais da empresa do que eu.

Então vamos lá: quais são os 3 motivos para se vender uma ação?


MUDANÇA NOS FUNDAMENTOS

Por trás de todas as recomendações de ações da Nord existe uma tese de investimento. Nela, o analista lista os motivos pelos quais uma empresa é boa para se investir e o que ele espera que ela entregue ao longo do tempo.

Além de acompanhar as publicações trimestrais da empresa e os resultados, o analista também tem acesso aos comentários da administração sobre a evolução do negócio. Ele está continuamente em contato com outros agentes de mercado para validar as informações e mensurar se há alguma mudança na percepção de risco do negócio.

No caso de Via Varejo, especificamente, havia um pilar bastante importante na tese que tinha relação com a parte societária, governança e capacidade de execução da equipe de gestão.

Simplesmente não dá para ser sócio de uma empresa (é isso que somos ao comprar uma ação) em que os controladores vivem em constante conflito, em que não haja um alinhamento de interesses com os minoritários e que, por consequência, não conseguem colocar na gestão do negócio uma equipe competente. Isso destrói o valor do negócio ao longo do tempo.

De fato, esses pontos foram muito bem endereçados. Contribuíram para uma melhora na percepção do mercado e as ações se valorizaram.

Entretanto, se a qualquer momento a companhia voltasse a flertar com o modelo antigo, se voltasse a ter problemas societários, ou o time de gestão mostrasse problemas em implementar o plano de reestruturação da empresa  e o Ricardo entendesse que isso apresentava muito risco para apostar na tese  ele poderia se ver obrigado a recomendar a venda das ações.

Independentemente se com lucro ou prejuízo desde a recomendação.

Felizmente não foi assim, e a tese foi se confirmando.

Mas cumprida as exigências mais qualitativas, era importante também que houvesse uma evolução do lado quantitativo.

VALUATION

Há exato 1 ano, quando comprei as ações a 4,80, elas não estava baratas porque valiam pouco em reais.

E também não estavam baratas porque agora comparamos com o preço atual, na casa dos 15 reais (efeito retrovisor).

Estavam baratas na métrica de Valuation.

Preço é quanto você paga = valor de mercado da empresa na bolsa

Valor é que você leva = ativos/geração de caixa/lucro

Na altura a empresa negociava a menos de 5 vezes o seu lucro operacional (EBITDA).

Se comparada com empresas do mesmo setor, que geralmente negociam na casa de 13 ou 15 vezes EBITDA, isso representava um desconto relativo bastante significativo, mesmo com a Via Varejo apresentando margens operacionais piores do que as suas concorrentes e um plano de reestruturação que precisava se confirmar.

Com a valorização das ações em mais de 200 por cento, a empresa negocia hoje na casa de 15 vezes EBITDA.

Ou seja, o PREÇO variou para cima, mas o VALOR se manteve praticamente no mesmo patamar, já que em termos financeiros ainda não foi possível ver melhorias substanciais nos resultados da companhia.

Para piorar ainda mais o cenário, nos últimos 3 meses quase a totalidade das lojas ficaram fechadas.

Bom, mas e o on-line?

De fato, o on-line que apresentou uma melhora substancial, muito acima do previsto de quando a tese foi concebida. Isso deveria ser incorporado no VALOR  futuro da empresa (resultados melhores).

Ainda assim, acreditamos que ela entrou em um oba-oba com essa história e está pagando um preço muito alto por isso.

Percebem que a vida do analista é conviver diariamente confrontando Preço e Valor das empresas?

Não se compra uma ação só porque caiu muito. E muito pior, não se compra uma ação só porque a cotação não para de subir.

Se compra ações quando elas ficam baratas.

Há um gráfico da gestora IP participações, que ilustra bem o que aconteceu com várias empresas na bolsa recentemente.

Fonte: IP participações

Muitas ações caíram bastante, mas o valor das companhias foi preservado. Ofereceram boas oportunidades para quem soube aproveitar.

Houve também, claro, empresas que tiveram o seu negócio muito impactado ou até dizimado (perda permanente).

Mas segundo esse mesmo modelo, se o preço se afasta muito para cima do valor, então é hora de vender.

O gráfico abaixo representa muito bem o caso de Via Varejo.


No começo da recomendação o preço era muito abaixo do valor e com boa margem de segurança. Recomendação: COMPRA.

Agora, temos um preço acima do valor intrínseco. Recomendação: VENDA.

Percebam também que seria muito mais confortável para o analista se houvesse uma evolução em paralelo das duas coisas. O preço vai se ajustando à medida que a empresa vai entregando.

Mas o mercado, por várias vezes, é irracional.

Por isso é importante lembrar o que eu postei lá no início da newsletter:“O Value Investing é simples de entender, mas difícil de implementar. A parte difícil é disciplina, paciência e bom senso”.

Investir é algo muito fácil, as pessoas que tendem a dificultar.

Ficam eufóricas quando o mercado não para de subir, e acham que vai subir infinitamente.

Entram em pânico quando o mercado despenca e acham que o mundo vai acabar.

As ações de Via Varejo podem continuar subindo? Sim.

Eu vou pagar pra ver? Não.

Dado o valuation atual, entendemos que a relação risco/retorno mudou bastante.

OUTRAS OPORTUNIDADES

A principal vantagem da liquidez diária da bolsa é que todo dia você pode se tornar sócio de uma nova empresa.

Imagine o seguinte cenário: a bolsa inteira volta a despencar 50 por cento e apenas Via Varejo fica estável.

É bem provável que no meio de toda queda você encontre empresas de altíssima qualidade, a ótimos preços e que apresentam uma relação risco retorno muito mais convidativo.

Por isso o terceiro motivo tem relação com outras oportunidades.

Eu posso gostar muito de uma empresa, achar que ela tem um valuation atrativo, mas na medida em que o meu capital é finito, se eu encontro algo muito melhor, elas passam a concorrer na minha carteira.

Entendemos que algumas empresas da bolsa ainda não se recuperaram do tombo da crise, simplesmente porque estão fora do radar da maioria dos investidores do mercado.

Repito: são boas teses de investimento, a valuations bastante descontados e que oferecem uma relação de risco/retorno muito melhor do que Via Varejo nos preços atuais.

É hora de seguir a risca a cartilha do Value Investing, porque ela funciona.

Na semana que vem teremos novidades de quais ações entraram na minha carteira.

Fiquem de olho aqui na newsletter!

Um abraço e bom feriado,



Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Renato Breia
em 11/06/2020 para Nord Insights

Possui 15 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Link Corretora, Galleas Asset, Rico Corretora e foi sócio da Empiricus Research. Formou-se em economia pela PUC-SP, tem especialização em Gestão de Fortunas pela Columbia University e é Planejador Financeiro, CFP®.

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