Como o diabo gosta 


Agosto, mês de desgosto

Trump volta a vociferar contra a China, e mercados globais chacoalham. O POTUS sinaliza disposição para ampliar a sobretaxação de produtos do rival. Preocupações se disseminam para a Europa, com a leitura de que a UE pode enfrentar problemas de mesma magnitude com os EUA. A isso somam-se tensões em mercados emergentes, dentre os quais nossos hermanos argentinos.

Esse é o cenário que ditou noite difícil nos mercados asiáticos e dá o tom de uma sessão negativa tanto no Velho quanto no Novo Continente. Aqui, repercutimos ainda a mais recente pesquisa eleitoral. Ibovespa inicia a sexta-feira em queda; dólar em alta e juros abrindo - tudo como o diabo gosta.

Agosto se vai fazendo jus à fama de mês de desgosto e, a cada semana que passa, mais longas parecem ficam as semanas - e assim será, pelo menos, até outubro.


Estímulos dolorosos

De tanto ser fustigado, o BC entrou no câmbio ontem. Fez-se, assim, a alegria dos velhacos das mesas de negociação que buscavam determinar em que estágio da Escala de Glasgow se encontrava o coma da autoridade monetária.


Já expus algumas vezes, neste espaço, minha convicção de que o BC segue a cartilha e, portanto, não se mete a tentar determinar o nível do câmbio - atua, portanto, tão somente para suavizar as oscilações, sem qualquer pretensão de mudar sua trajetória. Sigo acreditando nisso.


Certamente, no entanto, cresceu de ontem para o hoje o número de pessoas nas trading desks dispostas a testar novamente essas convicções. Inclusive porque o cenário é especialmente propício para tentar fazer dinheiro ali: é no dólar que o "game" está rolando.


Sim, é inquestionável que temos questões locais pesando. Não percamos de vista, contudo, que não é só isso: fatores geopolíticos (leia-se "Trump esbravejando") e turbulências em outros mercados emergentes (notadamente Turquia e Argentina) também estão influenciando o dólar. Veja, por exemplo, o comportamento recente do câmbio do peso argentino contra o dólar em relação a outras moedas de países emergentes:


Sempre bom lembrar que não é só com a gente.

Turbidez

Começa hoje a propaganda eleitoral para governadores. Amanhã, é dada a largada da corrida presidencial na TV. Tudo mais constante - e se ninguém protelar -, uma decisão sobre a candidatura de Lula deve emanar do TSE hoje à tarde - ou seja, prepare-se para vol ao longo da tarde.

Mantida a tendência, Haddad deve ser oficialmente alçado à condição de cabeça de chapa. Simultaneamente, rejeição a Bolsonaro ultrapassa 60 por cento e atinge recorde - o que, se mantida a tendência, pode dificultar bastante as coisas num eventual (e provável) segundo turno.

Fica a sensação de que o cenário está ficando mais turvo do que era semanas atrás.


Bancos digitais: o novo modelo de IPOs

Com a badalação dos bancos digitais, agora, todos os bancos são digitais (#somostodosdigitais). Mesmo que, de digitais, tenham somente os planos.

E o Valor comenta como o BMG planeja um IPO para financiar seu crescimento como banco digital (!).

O pior de tudo é que os banqueiros de investimento ainda conseguem convencer grandes gestores da “enorme oportunidade”. O que não falta nos prospectos dos IPOs é a palavra crescimento: “Aproveite que o resultado melhorou e soca logo no mercado (antes que piore)”.

Claro. Algumas vezes as empresas que fazem IPO são realmente interessantes e possuem mercados promissores. Mas quando os banqueiros de investimento estão envolvidos, sempre desconfie (sempre).

No Investidor de Valor adoramos bancos. Gostamos de seus lucros altos e estáveis venientes de um ótimo negócio de seguridade e serviços – inexistente nos bancos pequenos. Estes, normalmente, dependem de emprestar dinheiro (crédito), um negócio que parece ótimo até que uma crise arrebenta os balanços e as ações.

Segundo o Valor, o BMG teve crescimento de mais de 350 por cento em seus lucros e atingiu ROE (retorno sobre patrimônio) de 5,9 por cento. Estaremos atentos a mais informações.

Assuntos relacionados
Compartilhar este artigo
por Ricardo Schweitzer
em 31/08/2018 para Nord Insights

Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!