Investir em um fundo ou gerir o próprio dinheiro?


Hoje quero falar da diferença entre investir em renda fixa diretamente e investir em um fundo que investe em títulos de renda fixa.

Apesar de parecer quase igual, as variações de cada tipo de investimento são grandes e podem fazer uma baita diferença ao longo dos anos.

Quando digo investir diretamente, quero dizer comprar títulos públicos pelo Tesouro Direto, por bancos (CDBs, LCIs, LCAs) ou via corretoras (debêntures, CRIs e CRAs).

Investir em um fundo, claro, é delegar para algum gestor alocar o seu dinheiro, da forma como ele achar adequado. Podendo ser um fundo ativo (compra e vende quando achar bom) ou passivo (compra e deixa, ou segue um índice).

Vamos lá…

As principais diferenças são:

  1. Cobrança do IR:

Nos fundos, o Imposto de Renda é regressivo, e cobrado a cada 6 meses, enquanto nos títulos de renda fixa o imposto é regressivo também, mas cobrado apenas no vencimento ou na venda antecipada.

O que isso muda? No curto prazo quase nada. No médio prazo (3 anos em diante) pode fazer uma boa diferença.

O imposto que você pagaria nos fundos estaria rendendo juros sobre juros para você nos títulos diretos.

Por exemplo, imagine investir 1.000 reais em um título que rende 10 por cento ao ano. O gráfico abaixo mostra a diferença de retorno ao longo do tempo.

  1. Cobrança da taxa de administração

Enquanto títulos privados e de bancos não pagam taxa nenhuma de administração, títulos públicos do Tesouro Direto pagam 0,30 por cento, e fundos pagam geralmente de 0,5 a 2 por cento (alguns cobram muito mais).

A taxa de administração, diferente do IR, é cobrada em cima do montante total investido, e não apenas da rentabilidade. Isso faz com que a diferença de retorno ao longo do tempo seja ainda maior.

O gráfico abaixo compara um fundo que cobra 1,5 por cento de taxa de administração contra um ativo que não paga nada.

  1. Performance

Aqui é onde o fundo tem maior vantagem, se gerido da maneira correta.

Inicialmente, vale pontuar que um fundo passivo ou que segue algum índice (como o IMA-B) pode ser replicado diretamente com custos menores. Então, aqui eu falo simplesmente de fundos com gestão ativa.

Enquanto um leigo pode não saber exatamente em que título investir, caso não tenha a ajuda de um analista, o gestor de um bom fundo pode conseguir excelentes performances, bem acima do CDI, que compensem os custos a mais que ele incorre.

O gráfico abaixo compara um gestor que performa 120 por cento do CDI dentro de um fundo com um ativo que rende 100 por cento:

Vale observar que a performance reportada de um fundo para os cotistas já é líquida de taxa de administração. Este gráfico mostra apenas o retorno do ponto de vista do gestor. Ou seja, ele tem que render 120 por cento do CDI, para que líquido de custos o fundo reporte uma performance de 100 por cento (claro que isso depende do valor do CDI).

Então deve-se procurar fundos com performance (reportada) acima de 107 por cento do CDI, para que compense os custos do come-cotas (IR a cada 6 meses).

Os fundos ativos geralmente cobram 20 por cento de taxa de performance, em cima do que eles renderam acima do benchmark. Isso nem foi levado em conta no gráfico, mas é outra taxa que o cotista tem que arcar.

Para escolher um bom fundo é preciso olhar com cuidado a performance passada. Não apenas a recente, mas a performance ao longo de vários anos. É preciso confiar na experiência, consistência e no bom senso do gestor.

É preciso entender também que tipo de risco ele corre para chegar na rentabilidade desejada. Por exemplo, no ano passado, alguns fundos DI do Banco do Brasil, que rendiam muito próximo de 100 por cento do CDI, deram rentabilidade negativa. Os clientes me mandaram emails revoltados, não entendendo como aquilo era possível. O fundo não deveria investir apenas em LFT?

Acontece que, como a taxa de administração do fundo era muito alta, os gestores colocavam crédito privado para que, na média, atingisse CDI depois dos custos. Numa dessas, eles colocaram créditos da OI, que entrou em recuperação judicial e causou prejuízo no fundo.

Por isso, não é importante ver apenas o retorno mas também o tamanho do risco que se incorre. A mesma profundidade na análise dos ativos é necessária na análise dos fundos.

A pegadinha é que dificilmente eles terão riscos semelhantes. Um fundo que investe ativamente será sempre bem mais arriscado que uma LFT. Então no final, é uma questão de, uma vez que encontrado um bom gestor, aceitar correr mais risco para que se possa ter um retorno maior.

Esse foi mais um artigo para explicar melhor o mundo dos investimentos em renda fixa. Não se esqueça que tudo tem os dois lados da moeda, e é preciso conhece-los e fazer escolhas que gerarão ganhos e perdas.

O mais importante é estar totalmente ciente dos riscos e retornos potenciais.

Um grande abraço,

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por Marilia Fontes
em 14/06/2018 para A Dama de Aço

Possui 10 anos de experiência de mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelas assets do Itaú, Mauá e Kondor, além de analista da renda fixa da Empiricus Research. Formou-se mestre em Economia pelo Insper.

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