É hora de entrar de novo?


Estamos vivendo uma crise nos mercados, com ativos de risco acumulando perdas já expressivas.

Tudo começou com a recuperação do emprego nos EUA e a alta da inflação. Durante vários anos, a América contou com juros baixos, inflação baixa e exportava investimentos para o resto do mundo, que ainda tinha algum crescimento. Agora tudo mudou, e o dinheiro que procura rentabilidade está voltando para a terrinha mãe e fortalecendo o dólar.

Para os emergentes, pelo menos no curto prazo, isso significa desvalorização cambial, fuga de capital da bolsa e dos títulos de dívida, e repasse para a inflação.

Você deve estar se perguntando: até onde isso pode ir? Tem algum nível no qual vale a pena entrar?

O artigo de hoje é para te dizer que esse nível não existe! Os preços durante um mercado em crise, ou um “barata voa” como costumamos dizer nas mesas, não fazem sentido. 

O mercado de DI pode chegar a precificar juros absurdos que não correspondam a situações possíveis de Selic. Nesse momento, dizemos que temos que “jogar a calculadora fora” e esperar o mercado se acalmar e os investidores zerarem suas posições de risco.

Só depois desse movimento técnico de stop que vale a pena entrar de novo. Ou seja: não é questão de nível de preço, é questão de sentimento e confiança.

Nem os DIs curtos se safam nessa hora: o mercado pode chegar a precificar altas de 25 bps, de 50 ou até de 100 bps - como eu já vi acontecer -,  e aqueles que seguram a posição achando que o mercado “não consegue piorar mais” acabam quebrando a cara e tendo que zerar no estômago, depois de muito prejuízo.

Até para os que de fato seguram a posição e têm a paciência de esperar o “barata voa” passar, sugiro também não entrar com tudo em um dado nível, pois podem ter a oportunidade de entrar em um momento muito melhor - às vezes, na metade do preço. Então pense em sempre ter um valor reservado para a chegada desse momento.

E por que o mercado pode chegar a preços absurdos?

Como eu disse acima, estamos exatamente em uma mudança de tendência: de dólar fraco para dólar forte; de países desenvolvidos com baixo crescimento para alto crescimento; de juros baixos para juros em tendência de alta.

O começo da mudança de tendência é bem perigoso, pois alocações de fundos gigantescos, construídas ao longo de vários anos, tem, agora, que ser desfeitas. E esse movimento pressiona os preços. Outros investidores, vendo o selloff, acabam tendo que zerar “no estômago”, por conta do limite de risco de seus fundos. E assim a bola de neve se forma.

Para a nossa infelicidade, além do cenário externo conturbado ainda temos uma eleição indefinida e uma situação fiscal gravíssima. Isso vai garantir que nosso selloff não pare em um preço lógico.

Um último cuidado que devemos tomar é com estratégias de “caiu, comprou”. Em um mercado normal, realizações geralmente são seguidas de novas altas e retorno ao fundamento, e isso faz com que investidores aproveitem as quedas para comprar os ativos arriscados em bons preços.

Mas este momento não é de um mercado normal; é época de mudança de tendência e crise nos ativos de risco. Portanto, não recomendo o “caiu, comprou”. Altas chances de cair mais, e depois ainda mais, e depois mais um pouco. A realização pode acabar sendo assustadora. Não tomaria esse risco agora.

Posso pecar pela cautela excessiva. Mas, quando se fala em gestão de patrimônio, e em rentabilizar o dinheiro que demoramos uma vida inteira para conseguir, eu prefiro que este seja o viés mesmo.

Neste momento, o meu conselho ao investidor é: jogue a calculadora fora; não aumente o risco, e aguarde o mercado se reposicionar para essa nova tendência de dólar forte que está se apresentando.

Depois da tempestade, aí sim podemos olhar o que sobreviveu e procurar por barganhas.

Bom final de semana!

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por Marilia Fontes
em 25/05/2018 para A Dama de Aço

Possui 10 anos de experiência de mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelas assets do Itaú, Mauá e Kondor, além de analista da renda fixa da Empiricus Research. Formou-se mestre em Economia pelo Insper.

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